Quanto mais se golpeia um gongo, maior será a quantidade de pessoas que o escutam. DeRose
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Aconteceu em Roma, em 17 de fevereiro de 1600, no Campo dei Fiori, a praça das flores...
Uma fumaça displicente, cinza como o céu que antecede a primavera, se ergueu das brasas que acabavam de consumir Giordano Bruno, monge dominicano que renunciara ao hábito, poderoso visionário. Tântrico sem sabê-lo, ter-lhe-ia bastado confessar seus "erros" para escapar à fogueira: preferiu ser queimado vivo a renegar. Em sua prisão romana, para onde fora levado sete anos antes, a mando do papa Clemente VIII, estrelas e átomos giravam em sua cabeça. Embora ele nada tenha descoberto ou inventado, sua genial intuição era cinco séculos avançada para seu tempo - o mais imperdoável dos erros...
Os textos seguintes, que resumem sua visão, são puro tantra:
"Todo o corpo do mundo vive... A mesa, como mesa, não é animada, nem a roupa, mas, como coisas naturais e compostas, elas comportam matéria e forma. Uma coisa, por menor, por mínima que seja, inclui substância espiritual (...) porque o espírito está em todas as coisas e não há corpúsculo, por ínfimo que seja, que dele não contenha sua parte e não seja por ele animado."
"É evidente que cada espírito tem uma certa coesão com o espírito do universo..."
"O nascimento é expansão do centro; a vida, plenitude; a morte é contração para o centro."
"Tudo o que existe é Um. Conhecer essa unidade é o objetivo e o termo de qualquer filosofiae da contemplação natural. Quem encontrou o Um, quero dizer, a razão dessa unidade, encontrou a chave, sem a qual não se pode passar à verdadeira contemplação da natureza."
- Giordano Bruno proclamava o valor permanente das leis naturais, que permitem a pesquisa do universo por uma ciência liberta de qualquer dogma, mas também assinalava a insuficiência dos sentidos para apreender o real.
- Ele concebia as estrelas como sóis, que poderiam ser centros de sistemas planetários semelhantes ao nosso, e habitados. Para ele, a Terra não era o centro do universo, e lhe atribuía o movimento, as idéias todas opostas à cosmologia de Aristóteles, ainda em vigor em sua época.
- Ele via no átomo uma réplica do sistema solar, como Niels Bohr, 350 anos mais tarde...
- Ele acreditava na pluralidade dos mundos.
Mas, principalmente, ele proclamava a existência de um psiquismo difuso até nos elementos mais humildes, juntando-se assim a outro visionário, Teilhard de Chardin, que escreveu: "Da biosfera à espécie, tudo não é senão uma imensa ramificação de psiquismos que se buscam através das formas".
Extraído do livro Tantra, o Culto à Feminilidade, LYSEBETH, André Van. Pág. 66. São Paulo. Summus. 1994.