O Yôga não visa resolver as mazelas do trivial diário e sim a grande equação cósmica da evolução. DeRose
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Uma coisa dura de se descobrir sozinho, como o fiz, é que os Mestres de Yôga indianos não são suaves nem bondosos como os pinta a nossa imaginação cristianizada. No cristianismo, é preciso ser bom para se obter progresso espiritual e aprovação da comunidade. No Yôga hindu, a ênfase é dada à autenticidade, ao poder interior e ao esforço prático pelo progresso. A bondade pela bondade é uma virtude menor. Mais vale um Mestre severo e agressivo, mas que tenha um conhecimento verdadeiro, saiba ensinar e realize uma obra forte, do que um outro piedoso, contudo menos competente, que pouco saiba e nada realize de útil. Destarte, logo concluí que o Mestre da montanha, que rugia, era uma dama de politesse, em comparação com outros que vim a conhecer.
Certa vez fui prestar homenagem a um mestre, levando-lhe um pújá de frutas. Ele olhou de cara feia, não aceitou e fez um comentário em hindi com péssimo tom de voz. Uma pessoa presente, que entendia hindi e falava inglês, me explicou:
- Ele disse que você não tirou os sapatos para falar com ele.
Há mais de vinte anos atrás eu não sabia nada de etiqueta hindu nem das hierarquias vigentes. Então, preparei-me para acatar o ensinamento de boas maneiras: tirei os sapatos e voltei a oferecer-lhe o pújá. Recusou novamente.
- Ele disse que você está com as mãos sujas pois, ao se descalçar, tocou os sapatos.
Lavei as mãos, retornei, descalcei-me sem tocar os sapatos e ofereci outra vez. A cena se repetiu.
- Agora ele disse que você está lhe oferecendo os frutos com as duas mãos e é sabido que para os hindus a mão esquerda é impura.
Eu deveria ter continuado a receber minha lição de humildade e de etiqueta, até que ele aceitasse o pújá, mas acho que eu era muito orgulhoso e tinha chegado ao meu limite, afinal, se ele era Mestre eu também era, conquanto mais jovem. Assim sendo, pedi que lhe traduzissem o meu recado:
- Por três vezes tentei fazer uma oferenda à divindade encarnada em seu corpo e por três vezes ela recusou. Devo entender que esse corpo já está muito bem nutrido e que a divindade que habita em todos nós ficará mais satisfeita se a oferenda lhe for feita através desta criança faminta.
E, dizendo estas palavras, dei as frutas a uma menina mal nutrida que assistira a tudo com um olhinho comprido para as frutas. Esta aceitou-as imediatamente com um sorriso que iluminou sua face e o meu coração. Quando me recordo da cena, não posso evitar as lágrimas. A mãe dela, agradecida, deixou o mestre para lá e tentou me beijar os pés em sinal de grande reverência segundo a tradição, o que não permiti, porquanto a minha tradição discorda e eu já estava meio saturado de tradições.
Outro fato que chocou de início a minha inocência juvenil foi a cena inesperada de um swámi atirando pedras nos macacos que andam soltos pelos mosteiros. Mas, logo entendi. Os macacos disputam palmo a palmo aquele território com os homens, há séculos. Quando encontram uma janela aberta, eles entram para roubar coisas. Se alguém invade seus domínios com frutas nas mãos, os macacos atacam para tomá-las e podem ferir a pessoa se ela reage. Então, aprendi que as frutas devem ser carregadas dentro da bolsa, mulheres não devem portar pacotes - os monos já aprenderam que elas são mais atemorizáveis - as janelas devem ficar fechadas e nada de achar os símios bonitinhos. Pode-se acabar levando uma mordida feia.
Descobri também outra coisa. Quanto mais rude for o Mestre, mais elevado ele está na escala do mosteiro. Se alguém que ainda não o conhece lhe receber com muita simpatia e educação, é possível que seja um noviço sem nenhum conhecimento. Os Mestres só se tornam mais amáveis quando nos conhecem melhor, ou quando lhes somos apresentados por alguém que eles prezem. O mais amável que conheci entre todos os que ocupam altos postos, foi o sábio Sri Swámi Krishnánandaji, da diretoria do Sivánanda Ashram. Muito culto e inteligente, ele consegue ser ao mesmo tempo educado, afável e muito bem-humorado. Também gostei sobremaneira do tratamento que me foi dispensado no Sri Aurobindo Ashram em Delhi, pela Dirigente Madame Tara; no Yôgendra Yôga Institute em Bombaim, no Muktánanda Ashram em Ganeshpuri e no Kaivalyadhama em Lonavala.
Extraído do livro Quando é preciso ser forte, do Mestre DeRose