A realidade é aquela da qual temos consciência. DeRose
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Em 1975 eu tinha ido à Índia para, ou confirmar a exatidão do que ensinava, ou mudar de método. Entretanto, compreendi que essa empreitada não seria tão fácil. Aprendi que é preciso atentar para certas filigranas ao consultar um Mestre hindu. É preciso conhecer a psicologia desse povo e levar em consideração que foi colônia oprimida pelos ocidentais até há bem pouco tempo, o que o tornou ressabiado. Há que levar em conta também suas tradições milenares.
Por exemplo, eles consideram que um Mestre hindu não deve sair da sua pátria para ir lecionar noutros países. O discípulo é que tem que ir atrás dele. Esse princípio coloca em posição desabonadora perante os indianos, todos quantos vieram ao ocidente ensinar seja lá o que for: Yôga, Vêdánta ou Música.Por exemplo, eles consideram que um Mestre hindu não deve sair da sua pátria para ir lecionar noutros países. O discípulo é que tem que ir atrás dele. Esse princípio coloca em posição desabonadora perante os indianos, todos quantos vieram ao ocidente ensinar seja lá o que for: Yôga, Vêdánta ou Música.
Ainda aparentado àquele princípio, eles têm um outro, comum a quase todos os povos orientais: consideram que o ocidental é um curioso, um fraco, um indisciplinado, um aluno desleal e questionador compulsivo. O pior é que eles têm razão... Mas o problema é generalizarem, fazendo pagar o justo pelo pecador. Assim, hoje sei que é muito difícil conseguir que um hindu considere de boa qualidade o trabalho de um ocidental, a menos que este já tenha tido seu valor reconhecido, como foi o caso de Sir John Woodroffe, citado até por Sivánanda.
Mais uma coisa: a palavra Tantra, pronunciada por ocidentais passa a ter outra conotação. Como temos uma visão distorcida do Tantra, sempre que fazemos perguntas a respeito, os Mestres indianos já prejulgam:
- Esse aí é mais um turista à cata de erotismo exótico.
E não lhe dão informação alguma. Quando quiser indicação de livros, escolas ou Mestres tântricos, não use esse termo. Diga que procura livros ou Mestres de linha Shakta e você acaba chegando lá. Ou mostre que sabe do que está falando e vá logo esclarecendo que é de linha branca, já que a negra não é bem conceituada. Diga que deseja ensinamentos Dakshinacharatantrik. Esta linha é muito respeitada. Felizmente, é a nossa.
Para você ter uma idéia de como funciona tudo isso, vou lhe contar como consegui parte das confirmações que buscava.
Quando era mais novo tentei consultar uma grande autoridade em Yôga antigo. Fui chegando e abrindo o jogo:
- Mestre, eu sou instrutor de Yôga na minha terra e gostaria de lhe fazer umas perguntas.
- Instrutor de Yôga, eh? Quantos anos você tem? Vinte e quantos? Você é muito jovem. Não sabe nada.
- O senhor tem toda a razão, Mestre. Por não saber nada, quero fazer estas perguntas, para aprender alguma coisa.
- Está bem. O que é que você quer?
- Após muito estudo, meditação e prática, sistematizei um método e queria saber se está correto.
- Está errado.
- Mas Mestre, eu ainda não descrevi o método.
- Está errado: você não é hindu, não pode criar métodos.
- Eu não criei coisa alguma. Apenas sistematizei, baseado nos Shastras e em tudo o que já existe no Yôga antigo. Posso descrever o método?
- Hum!
- A característica principal é nossa prática denominada ashtánga sádhana, constituída de mudrá, pújá, mantra, pránáyáma, kriyá, ásana, yôganidrá, samyama; e nossa fundamentação é Sámkhya e Tantra.
- Não presta. Está tudo errado. Vocês pensam que sabem muito. Vá estudar, que você é muito jovem. Não pense mais em criar algo novo. É o antigo que tem valor.
Eu concordava com o que ele havia dito e teria desanimado com relação às minhas pesquisas, se não houvesse percebido uma evidente má vontade em ouvir e avaliar. Por isso, fiz o inesperado. Voltei à Índia tempos depois e fui procurá-lo de novo. Ele não se lembrava mais de mim, pois todos os anos passavam muitos ocidentais por lá. Além disso, nesse ano meus cabelos começaram a ficar grisalhos e tomei a precaução de me bronzear bem ao sol de Ipanema antes de iniciar a viagem. Havia notado que alguns indianos não permitem muito acesso a pessoas de pele clara. Para eles, a tez muito branca lembra a opressão imposta pela dominação britânica. Vesti-me com as tradicionais roupas e calçados indianos para demonstrar boa vontade e aceitação da sua cultura. Também aprendi em viagens anteriores que geralmente eles não simpatizam com hipongas alternativóides e dão mais atenção a pessoas que lhes pareçam sóbrias e bem sucedidas na vida, ou seja, pessoas aparentemente estáveis. Logo, mais confiáveis e capazes de realizar um trabalho sério.
Desta vez, aos 40 anos de idade, a abordagem foi diferente:
- Mestre, eu sou um estudante de Yôga na minha terra e gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
- Perfeitamente, meu filho. Pode perguntar.
- Baseado nos Shastras, após muito estudo, meditação e prática, cheguei a um método que queria submeter à sua apreciação.
- Continue.
- É fundamentado na linhagem Dakshinacharatantrik-Niríshwarasámkhya. A prática característica é o ashtánga sádhana, constituída por mudrá, pújá, mantra, pránáyáma, kriyá, ásana, yôganidrá, samyama. Na sua opinião isso é invencionice de ocidentais ou lhe parece legitimamente hindu?
- É hindu, sem dúvida. Um ocidental não inferiria uma estrutura ortodoxa desse tipo.
- Mas não parece coisa surgida no século vinte?
- De forma alguma. Pelo que você acaba de descrever, é um Yôga muito antigo. Tão antigo que hoje já não existe mais na Índia. Como você chegou a ele?
- Eu o sistematizei, Mestre, certamente baseado nas Escrituras e na herança ancestral dos yôgis que nos precederam nesta senda. Sou aquele instrutor que esteve aqui para consultá-lo uns tempos atrás e, por não saber como articular corretamente as perguntas, passei-lhe uma idéia errada do método.
- Como é mesmo o nome desse Yôga?
- Swásthya Yôga.
- É o próprio Shiva Yôga ou Dakshinacharatantrik-Niríshwarasámkhya Yôga. Uma preciosidade. Continue sua pesquisa. Você está no caminho certo.
Quase soltei foguetes. Contudo, tanto neste caso quanto na maioria das vezes, quando perguntava onde encontrar ensinamentos desta linhagem nobre e pré-clássica, a resposta era a mesma: já não existe mais. Então, fui procurar os fragmentos, tal como o faz um arqueólogo quando quer reconstituir um objeto antigo que, por inteiro, já não existe.
Passei a procurar em separado, o Dakshinacharatantrika por um lado e o Niríshwarasámkhya por outro. Assim, acabei encontrando uma escola Shakta de tendência Vêdánta e uma Sámkhya (Sêshwarasámkhya) de tendência Brahmácharya. Mas já era alguma coisa.
Na escola Shakta (Yôga Shaktí Mission, 11 Jaldarshan, 444 Nepean Sea Road, Bombay) fui informado de que o Dakshinacharatantrika ainda existe na Índia, mas hoje não é mais Sámkhya como na antiguidade e sim Vêdánta. E que podia ir desistindo de fazer contato por tratar-se de escola secreta e ainda mais fechada a ocidentais do que as outras. De qualquer forma, recebi, ali mesmo, muitas instruções úteis e reconfirmações de que o Swásthya Yôga era de inspiração pré-ariana e de que as bases tântricas estavam bem orientadas. Indicaram-me também vários estudiosos na Índia, Europa e Estados Unidos, com os quais poderia trocar idéias, visitando ou me correspondendo.
Quanto ao Sámkhya, a única escola realmente boa de Yôga Sámkhya que encontrei era Brahmácharya (Yôgendra Yôga Institute, Santa Cruz East, Bombay). O tipo de Sámkhya era Sêshwarasámkhya, diferente do que buscávamos, mas pude aprofundar-me o suficiente para compreender o Niríshwarasámkhya. Pude confirmar também que o Niríshwara é mais antigo do que o Sêshwara, sendo que este já é mais antigo do que a tendência Vêdánta no Yôga. (A escala de antiguidade portanto seria: o Yôga Sámkhya é mais antigo do que o Yôga Vêdánta; e o Niríshwarasámkhya, mais antigo do que o Sêshwarasámkhya.)
Há umas poucas outras escolas de Yôga de linha Sámkhya, mas acabei não me interessando em obter indicações de como encontrá-las, uma vez que muitas fontes fidedignas qualificam aquela onde estudei como a melhor da Índia. Também não teria adiantado muito, pois seriam todas de linha clássica (Sêshwarasámkhya e Brahmácharya) e não pré-clássica (Niríshwarasámkhya e Dakshinacharatantrika), que era o que buscávamos. Segundo fontes abalizadas da Índia, o Niríshwarasámkhya Yôga não existe mais. Está extinto. Muito mais ainda o Dakshinacharatantrik-Niríshwarasámkhya Yôga. Esperamos que, pelo menos na memória do leitor, o nome enorme das nossas raízes não seja extinto, pois repetimos a mais não poder nestas últimas linhas!
Por outro lado, poderíamos encontrar confirmações e dados preciosos numa bibliografia selecionada que nos foi fornecida. Alguns dos livros, não os conseguimos encontrar nem na própria Índia. Outros eram obras célebres que logo nos pusemos a estudar.
Extraído do livro Quando é preciso ser forte, do Mestre DeRose